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No palco da saudade: Ator Epifânio

A sua estreia aconteceu em 1832, numa época em que o teatro português atravessava uma das fases mais difíceis do seu desenvolvimento. O grupo de atores em atividade era constituído por gente de pouca cultura, na sua grande maioria analfabetos, sem ninguém com qualificações suficientes e capaz de assumir uma direção competente dos espetáculos. As grandes preocupações dos atores resumiam-se à necessidade de «pisar bem, saber quadrar-se bem, saber gesticular, saber cair bem e saber recuar». E a declamação, por sua vez, era deplorável! Consciente desta realidade, o jovem Epifânio Aniceto Gonçalves decide incentivar Emile Deloux, ator de uma prestigiada troupe francesa em digressão pelo nosso país, a aceitar o desafio do seu amigo Almeida Garrett de ficar em Lisboa e fundar uma companhia portuguesa de teatro.

 

Epifânio, nome com que ficaria para a história do teatro português, integrou desde a primeira hora o elenco daquela companhia, que viria a ter sede no Teatro da Rua dos Condes, convertendo-se no mais acérrimo defensor da nova escola de representação francesa. E de tal forma se apropriou das lições de Deloux que o substituiu na direção da companhia, quando este decidiu abandonar aquelas funções e regressar a Paris. Homem dotado de superior inteligência, possuidor de grande carisma e espírito de liderança, Epifânio não só deu continuidade ao trabalho do mestre como o superou em ousadia e inovação, arrastando a burguesia lisboeta até àquele velhinho teatro, que não passava de um pardieiro, metendo em cena cavalos e camelos autênticos, de forma a rivalizar com o circo – o espetáculo das grandes multidões na época.

Depressa o teatro se transformou no divertimento por excelência dos burgueses alfacinhas. Isto apesar das péssimas condições dos teatros, do primarismo das suas condições materiais, da precária iluminação a candeeiros de velas – ou fedorentos bicos de gás. Apesar disto tudo, o teatro passou a ser o centro da vida citadina, onde se ia para afirmar a posição social, para intrigar, para fazer política, catrapiscar burguesas – ou burgueses. Tal como hoje no futebol, nessa altura criavam-se aguerridas claques, se bem que de apoio sobretudo às mulheres. As pateadas eram normais e não raro acabava tudo à bengalada, sobretudo no hall de entrada do Teatro D. Maria II, entretanto inaugurado – em 1846 –, onde se juntava meia Lisboa para dizer bem do próximo e mal do afastado, e saber as últimas novidades do mundo político e financeiro.

Epifânio foi o primeiro diretor, sócio, ensaiador e um dos mais bem pagos atores do D. Maria, onde foi encontrar as condições materiais e de espaço para se tornar no maior encenador – função então designada de mise-en-scène – do seu tempo. Lança-se na produção de espetáculos de grande montagem, cuidando ele próprio de todos os aspetos técnicos e artísticos, bem como da formação de novos atores. Entretanto, vai convivendo com a nata da intelectualidade portuguesa, juntando-se na casa do escritor Gomes de Amorim com a «sociedade de sábios, escritores e artistas». Epifânio passa onze anos da sua vida no teatro fundado pelo seu particular amigo Almeida Garrett, vivendo os maiores êxitos como ator e diretor, mas aguentando também as criticas mais violentas que à época eram normais numa sociedade em grande transformação.

Epifânio era um homem de forte estatura e também de grande sobranceria, mas doce e solidário com os camaradas de profissão. Dominado pela sua paixão pelo teatro, dizia-se que quando não estava no palco, no seu gabinete de trabalho ou no camarim, passeava no Rossio a admirar o frontispício do D. Maria, com o seu olhar de profunda melancolia que o caracterizava. Apesar da tristeza que emanava do seu semblante, ele era, no entanto, um ator que tão depressa interpretava papéis de galã, como de cómico, passando por todos os géneros numa procura incessante de abarcar o teatro na sua totalidade. Ficaram registadas nos mais diversos escritos as suas criações nos espetáculos “O Trapeiro de Lisboa” de Bayard, “O Templo de Salomão” de Mendes Leal, “Alfageme de Santarém” (no papel de Froilão Dias) de Almeida Garrett, “Ruy Blas” de Victor Hugo e “Frei Luís de Sousa” (no papel de Telmo) também de Garrett.

Em 1857 a cidade de Lisboa é varrida por uma epidemia de febre-amarela. O filho mais novo de Epifânio é contagiado e o ator passa noites inteiras à sua cabeceira, sem dormir. Mas o rapaz não resiste. E Epifânio acaba também ele por sucumbir à febre. Sobrevive-lhe o filho mais velho, que por morte do pai teve de começar a trabalhar com apenas dezoito anos, o que não o impediu de vir a ser «a nossa primeira autoridade em ciência da linguagem»: Epifânio Gonçalves Viana. Apesar de assoberbado pelo trabalho e pelos estudos, Gonçalves Viana dedica boa parte do tempo a preservar a memória de seu pai, tendo promovido pouco tempo depois da sua morte, com alguns atores do elenco do D. Maria, uma exposição composta por uma grande variedade de elementos iconográficos, onde sobressaía o Hábito de Cristo atribuído em 1839 pelo Rei D. Fernando II àquele que foi um verdadeiro ícone do teatro português.