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No palco da saudade: António Assunção

O grande público conhecia-o sobretudo das muitas personagens que representou em séries televisivas de boa memória, onde ficaram célebres o seu divertidíssimo Chefe de Polícia em “Zé Gato”, o seu Frade bonacheirão e comilão em “Caldo de Pedra” ou o seu ingénuo Detetive Tó em “Duarte e Companhia”, figuras que o popularizaram e ajudaram a criar dele a imagem de ator cómico.

 

Mas se é verdade que ele era um humorista de enorme talento, não é menos verdade que foi um grande ator dramático, tendo desempenhado exemplarmente os mais marcantes papéis criados pela pena de alguns dos maiores dramaturgos universais, como Bertolt Brecht, Federico García Lorca, William Shakespeare, Nicolau Gogol, Molière, Gil Vicente ou Samuel Beckett.

Natural de Paços de Ferreira, António Assunção estreou-se como ator no Teatro Experimental do Porto, aos dezanove anos, com a peça “O Avançado Centro Morreu ao Amanhecer” de Guzani, seguido de “Desperta e Canta” de Clifford Odets e de “O Barbeiro de Sevilha” de Beaumarchais. Um ano depois, em 1966, deu o salto para Paris, onde cumpriu um exílio de oito anos, escapando assim à Guerra Colonial. Na capital francesa conheceu o ator e encenador Carlos César, que havia criado o Teatro Oficina Português, com o qual representou mais de uma dezena de espetáculos que incomodaram seriamente a polícia política dos governos de Salazar e Marcelo Caetano, como “A Exceção e a Regra”, “Felizmente Há Luar” ou “O Grande Fantoche Lusitano”.

Após a Revolução dos Cravos, que saudou intensamente em noites parisienses que o fizeram recordar as febris manifestações de maio de 1968, António Assunção regressou a Portugal e envolveu-se na criação do Teatro de Animação de Setúbal, do qual foi um dos principais animadores durante o período inicial. Ali, sempre sob a direção de Carlos César, representou alguns espetáculos memoráveis, como “A Maratona” de Claude Confortès, “Tartufo” de Molière ou “O Destino Morreu de Repente” de Alves Redol. Dois anos depois, em 1977, após a última apresentação da peça “O 10º. Turista” de Mendes de Carvalho, deixou Setúbal e rumou a Lisboa para integrar o Grupo de Teatro de Campolide, atual Companhia de Teatro de Almada.

Integrando o elenco da companhia dirigida por Joaquim Benite, onde se manteve durante mais de vinte anos, António Assunção assinou algumas das mais brilhantes criações de toda a sua carreira. É inesquecível o seu Tanoeiro de “1383” de Virgílio Martinho, como exemplar foi também o seu Chefe Valadares de “A Noite” de José Saramago, assim como as personagens concebidas para “O Santo Inquérito” de Dias Gomes, “Dona Rosita, a Solteira” de García Lorca ou “A Vida do Grande D. Quixote e do Gordo Sancho Pança” de António José da Silva (O Judeu), entre muitas outras. Entretanto, foram surgindo os mais diversos convites para participar em inúmeros projetos televisivos, a par de um pequeníssimo conjunto de propostas na sétima arte.

Coerente com os princípios da justiça, liberdade e igualdade que tomou como seus desde muito novo, António Assunção fez sempre questão de não ceder naquilo que considerava ser o essencial, sendo por isso muitas vezes ostracizado por alguns produtores e realizadores cinematográficos só porque era de esquerda, convicta e assumidamente de esquerda. Talvez por isso, fez muito pouco cinema. Mas, apesar de tudo, ainda conseguiu dar vida e corpo a personagens notáveis em filmes de Luís Filipe Rocha (“Amor e Dedinhos de Pé”), Fernando Lopes (“Crónica dos Bons Malandros”), Luís Galvão Teles (“A Vida é Bela”), António de Macedo (“Os Abismos da Meia Noite”), entre outras produções nacionais e estrangeiras, como “A Casa dos Espíritos”.

A viver no lisboeta Bairro Alto, paredes meias com o palácio do Grande Oriente Lusitano, a sede da Maçonaria, António Assunção era presença assídua das últimas tertúlias do Largo da Misericórdia, onde costumava encontrar-se com Herberto Helder e outros amigos – poetas, atores, jornalistas ou simples cidadãos apreciadores de um bom copo e dois dedos de conversa – em infindáveis e sempre imprevisíveis tertúlias de fim de tarde. Um dia disse que tinha viagem marcada com a família para Nova Iorque, aproveitando assim uma pausa nas gravações de mais uma série para a televisão do Estado. Nos seus planos estava uma ida à Broadway, onde contava assistir a uma das peças em cena, coisa que só viria a conseguir ao apresentar-se como ator português.

Como é tradição em alguns dos teatros da Broadway, os espectadores tiveram oportunidade de subir ao palco no intervalo da peça. António Assunção não resistiu ao impulso do momento e subiu também ele até àquelas tábuas que são o sonho de muitos dos grandes atores norte-americanos. E enquanto se deslumbrava a olhar o cenário e toda uma parafernália de elementos cénicos, o seu coração decidiu parar de bater, fazendo-o cair desamparado. Foram ativados os serviços de emergência, tendo chegado pouco depois uma equipa de socorro. E enquanto os paramédicos faziam tudo para trazê-lo de volta à vida, o público começou a bater palmas e a gritar por ele, como que a pedir-lhe um último esforço. Mas de nada valeu. O ator deixou-nos naquela noite de 20 de agosto de 1998, em Nova Iorque, a poucos dias de completar cinquenta e três anos.