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No palco da saudade: Miguel Verdial

Não terá sido um ator de grandes recursos, mas foi um homem empreendedor, esforçado e destemido, defensor das causas republicanas e dos princípios do cooperativismo. O teatro começou por ser o seu espaço privilegiado de intervenção cívica e política, tendo iniciado a atividade profissional no portuense Teatro Baquet, que chegou a dirigir por diversas vezes. A peça de estreia como ator tinha um título em nada premonitório da sua vida futura, “O 1º. de Dezembro de 1640 ou A Restauração de Portugal”, já que Miguel Verdial acabaria por ficar para a História como um dos mais destacados homens que lideraram a Revolta de 31 de Janeiro de 1891, no Porto, movimento que visava derrubar a Monarquia e instaurar a República em Portugal.

 

A sua atividade política não foi fácil, como também não foi nada fácil a sua vida no teatro. A oferta teatral no Porto nos anos 1870 era escassa e resumia-se ao vaudeville e à opereta, géneros que atraíam pouco público às salas de espetáculos, apesar de gosto popular, situação que se devia à fraca qualidade das produções. Miguel Verdial, que começou por dividir a sua atividade como ator pelos diversos teatros da cidade, viu-se forçado a assumir a direção do Teatro da Trindade, que então existia na antiga Cancela Velha, de forma a garantir trabalho e a contribuir para uma maior qualificação do teatro a norte. Mas durou pouco tempo a aventura de Miguel Verdial no Trindade do Porto, que viria a ser completamente destruído por um violento incêndio poucas horas depois de ali ter terminado um espetáculo de grande sucesso que ele protagonizava. 

Com aquele mesmo espetáculo (“A Pata de Cabra” de Alves Rente), onde se estrearia nos palcos portugueses a vedeta espanhola Pepa Ruiz, Miguel Verdial apresentou-se pela primeira vez em Lisboa, onde se manteve até 1880 representando várias óperas cómicas e burlescas ou zarzuelas com relativo sucesso. Mas o seu coração e a sua cabeça estavam no Porto e na luta que ali travava o movimento operário, então revigorado pela influência da Internacional Socialista e da Comuna de Paris. E, pouco depois, ao mesmo tempo que surge como um dos mais destacados membros do Partido Republicano no norte, o ator prossegue a sua atividade artística no Teatro Baquet, onde por pouco não se encontra quando um pavoroso incêndio o destrói por completo.

Paralelamente ao seu empenho na luta «pelos progressos que melhor garantam a independência da Nação» – que viria a ser a máxima da Liga Patriótica do Norte (LPN), presidida por Antero de Quental –, Miguel Verdial integra o elenco da companhia que inaugura o antigo Teatro Chalet, em 1886, onde permanece durante três gloriosas temporadas, ao mesmo tempo que organiza inúmeros espetáculos em benefício da efémera LPN no Teatro do Príncipe Real (atual Sá da Bandeira). A popularidade de Miguel Verdial favorece a corrente radical do Partido Republicano na luta interna em defesa da revolução como a única forma capaz de substituir a Monarquia pela República, que acabaria por forçar a ideia do movimento de 31 de Janeiro de 1891.

Nas primeiras duas horas daquele dia da revolta republicana que viria a ser precursora da instauração da República em Portugal, Miguel Verdial acompanhava os militares revoltosos no Campo de Santo Ovídio (atual Praça da República) e acabou por assumir o protagonismo das negociações com os oficiais que comandavam o Quartel do Regimento de Infantaria 18, na tentativa de conseguir a sua adesão ao movimento. Alguma horas depois, as forças revolucionárias, acompanhadas por inúmeros populares, dirigiram-se para a Praça D. Pedro, ao som da Portuguesa, onde deveriam ocupar os Paços do Concelho. E pouco passava das seis horas da madrugada quando se abriram as janelas do edifício camarário. Alves da Veiga proferiu o discurso de aclamação da República e… Miguel Verdial anunciou a constituição do Governo Provisório!

 A República durou apenas duas horas! As forças fiéis à Monarquia abortaram a revolta e o Governador Civil do Porto fez publicar um edital suprimindo todas as liberdades individuais. A maioria dos envolvidos na rebelião – militares, estudantes e intelectuais – foram presos e julgados em vários navios fundeados ao largo de Leixões. O Conselho de Guerra reunido no vapor Moçambique condenou Miguel Verdial a três anos de degredo em Angola. Porém, ao fim de alguns meses, o ator conseguiu fugir. Ele e o capitão Leitão, condenado pelo mesmo delito, começaram por construir um caixote para se esconderem e regressarem a Portugal como se fossem mercadoria, mas foram descobertos. E após nova tentativa, ambos conseguiram chegar a Paris em liberdade.

Ao contrário do companheiro de fuga, Miguel Verdial não desistiu do seu país e tudo fez para voltar. Depois de imensos esforços diplomáticos, conseguiu uma amnistia em 1893. Regressou então ao teatro, mas por pouco tempo. Ainda participou em quatro espetáculos, que subiram a cena nas cidades de Lisboa e Porto, mas o seu espírito empreendedor e a sua incessante luta por uma sociedade melhor e mais justa levou-o a bater-se pelas causas do cooperativismo, em que se empenhou até ao fim da sua vida.